Energia, escolhas e o filtro interno

Eu, por força do hábito, a cada dois meses faço uma análise geral de armários e gavetas. Hoje não foi diferente e, enquanto eu organizava o que ia para o lixo e o que seria doado, me lembrei de uma conversa que ouvi esses dias.

Uma moça estava contando no ônibus que jogou fora uma panela porque tinha soltado a alça e alguém que ela segue disse que “consertar objetos quebrados” atraía energia de pobreza. A moça jogou fora sem ter outra panela e agora estava improvisando para cozinhar.

É estranho o poder que a gente dá para as pessoas na internet. Entendo que há estudos sérios sobre energia de pobreza, minimalismo, lei da atração... Eu mesma pratico alguns desses ensinamentos e vejo dando muito certo. Mas a gente precisa de discernimento. Se não, a gente cai em uma espécie de má-fé moderna, que é terceirizar a nossa autonomia e deixar que um estranho na tela defina o valor das nossas posses e da nossa realidade. Se bobear, a gente se torna extremamente consumista, descartando o que é útil só para caber em uma crença fabricada e distorcida.

Maturidade é entender o paralelo. Uma coisa é você usar uma caneca sem alça pensando: "Pô, gosto dela, cumpre o papel e nem tenho tanto copo assim". Isso é pé no chão. Outra coisa é olhar para ela todo dia e reclamar que é obrigado a usar aquilo porque não pode comprar outra. O problema nunca é o objeto em si, mas a relação psicológica que você estabelece com ele. Se ele te gera uma sensação negativa de frustração, aí sim virou um gatilho de escassez e deve ser eliminado. Mas repare que essa decisão precisa vir do seu autoconhecimento, e não de uma regra pronta ditada por criadores de conteúdo.

Mas o que me surpreende mesmo é a energia que a gente dispensa focando nos armários sem olhar ao redor. Sabe aquilo de que somos o reflexo das pessoas do nosso convívio? Não significa que somos iguais a elas, mas que a energia delas nos influencia diretamente.

Por educação, carinho ou apego, a gente mantém por perto amigos e familiares que estão drenando a nossa energia e bloqueando o nosso progresso. Pessoas que disfarçam deboche através de um sorrisinho amarelo, que diminuem ou fingem não notar as nossas conquistas, ou que nos entregam um afeto raso e pela metade. Afastar-se disso é um ato de preservação muito mais complexo e maduro do que jogar uma caneca velha no lixo.

Escolher o que vai para o lixo não basta. Devemos olhar com honestidade para quem estamos permitindo fazer parte da plateia da nossa vida. Quem ocupa espaço na sua mente, consome o seu tempo e desgasta a sua energia muito mais do que qualquer panela quebrada.

De nada adianta limpar os armários e deixar a casa impecável se a sua mesa continua cheia de gente que sorri, mas torce contra você em silêncio. A verdadeira escassez não está no que te falta materialmente, mas em insistir em espaços e relações que sufocam a sua autenticidade e não te deixam crescer.

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