Mídias sociais e o aumento de transtornos psicológicos: Qual a relação?

Em 2018 iniciei um projeto sobre como as mídias sociais afetam de forma significativa a nossa convivência em sociedade e sobre como a incidência de transtornos psicológicos tem aumentado conforme a presença das mídias sociais se tornam mais constantes em nosso cotidiano.

Inicialmente, era para ser um livro, tudo estava encaminhado, mas as circunstâncias me fizeram suspender o projeto por um tempo, até agora, quando resolvi transformar minhas considerações e observações em um (não tão breve) artigo. Na época, realizei uma pesquisa com 366 pessoas e os dados confirmaram as expectativas. A principal faixa etária diagnosticada com algum tipo de transtorno psicológico, era também a responsável pela maioria das contas criadas na internet, além do tempo dedicado a elas, cerca de 9 horas – ou mais – por dia.

O rápido crescimento das mídias sociais nas últimas décadas estabeleceu uma nova forma de interação humana. Plataformas online como Facebook, Twitter, Instagram (e outras milhares) permitem que pessoas em todos os cantos do mundo estejam conectadas 24 horas por dia, 7 dias por semana. É inegável as mídias sociais se tornaram uma parte integrante e, quase inevitável, de nossas vidas.

Os humanos são seres sociais que desejam interação em grupo, portanto, ao tentarmos substituir o contato físico pelo virtual, podemos ter impactos psicológicos prejudiciais.

É notável que durante o ano de 2020, nos tornamos ainda mais dependentes de toda a comunicação virtual, porém, muitas vezes não percebemos o quão prejudicial isso é para a nossa saúde mental e também para nossos relacionamentos interpessoais. “Aproximamos quem está longe e afastamos quem está perto.” Apesar de clichê, é uma realidade, mas qual a relação da utilização de mídias sociais com transtornos psicológicos?

Dentre as respostas recebidas na pesquisa realizada, pude observar que os principais transtornos identificados são: Ansiedade, Depressão e distorção da imagem corporal, também associado a problemas como Bulimia e anorexia. Com o intuito de manter a veracidade dos dados, considerei apenas as respostas que possuíam um diagnóstico médico.

A internet nos causa a sensação de satisfação pelo que é imediato, uma espécie de gratificação instantânea, como por exemplo o 'desejo' de verificar as redes sociais de alguém, ocasionando um prazer rápido e de curto prazo e, consequentemente, produção de dopamina (a substância química no cérebro associada à recompensa e ao prazer). O desejo de uma 'dose' de dopamina, juntamente com o fracasso em obter gratificação instantânea, pode levar os usuários a atualizar perpetuamente seus feeds de mídia social. Quando essa gratificação não é experimentada, os usuários tendem a internalizar crenças de que isso é devido a serem 'impopulares'. A falta de 'curtidas' em uma atualização de status pode causar uma autorreflexão negativa, levando a uma 'atualização' contínua da página, na esperança de ver que ou se outra pessoa 'gostou' da postagem, ajudando assim a alcançar a validação pessoal. Embora essas percepções possam não refletir de fato a imagem de alguém aos olhos dos outros, a ausência de gratificação pode amplificar os sentimentos de ansiedade e solidão.

Também associado ao desejo de gratificação instantânea está o impacto negativo que essas plataformas podem ter em nosso sono e na qualidade dele. O uso compulsório das mídias sociais pode prejudicar o padrão de sono, prejudicando o desempenho diário dos usuários. perda de sono funciona em um ciclo vicioso de reforço com a saúde mental; ou seja, a perda de sono devido ao uso noturno das mídias sociais pode levar a uma pior saúde mental, e a saúde mental deficiente pode levar ao intenso uso noturno e à perda de sono.

Poucos sabem, mas a luz emitida pela tela do celular, para o nosso cérebro, é equivalente a indicação da necessidade de despertar. Nosso cérebro é feito para responder a luz solar, logo, as luzes emitidas pelos dispositivos nos mantêm acordados e pode alterar quimicamente o nosso cérebro.

 

A depressão pode ser causada também pela necessidade dos usuários se manterem atualizados com as atividades de seus círculos sociais, podendo causar uma apreensão generalizada de que outros possam estar tendo experiências gratificantes das quais alguém está ausente,  caracterizando o desejo de permanecer continuamente conectado com o que os outros estão fazendo. Uma classificação criada em 2000 e pouco conhecida, traduz esses sintomas em FOMO (do inglês Fear of missing out), um termo criado originalmente pela indústria de marketing, porém tem sido associado ao uso intensivo de mídias sociais.

Outro transtorno mencionado acima e que é importante discutirmos é a questão da distorção da imagem corporal. Antes da popularização da internet, nossos padrões de beleza eram estipulados pelos artistas em novelas, revistas e/ou campanhar publicitárias. Quando olhavámos estas imagens, quase todos nós sabíamos que eram imagens alteradas eletronicamente para parecerem perfeitas. Porém, atualmente, quando vemos imagens em uma mídia social como o Facebook ou o Instagram, a maioria acredita que está vendo imagens cruas ou 'reais'. Quer isso seja verdade ou não, em última análise, essas imagens são usadas ​​como um padrão de comparação.

Em uma das respostas da minha pesquisa, uma respondente de 23 anos disse:

“Quando eu vejo os álbuns de fotos de outras pessoas, a comparação é automática. Eu acabo me sentindo um lixo. Comecei a utilizar Photoshop para as minhas fotos do Facebook, foi quando percebi que eu estava mudando muitas coisas e me tornando irreconhecível. Então vi a foto e disse a mim mesma, 'isso não é quem eu sou’.”

 Eu conheço uma menina que, na época, tinha dez anos e resolveu parar de comer depois de ler comentários online que as pessoas fizeram sobre o peso aparente em uma foto da Demi Lovato e este é só um de muitos exemplos de pessoas do mundo todo que tem suas vidas afetadas pelo que vêem e ouvem online.

Comentários ou tweets podem parecer simples e inofensivos, mas podem realmente impactar as pessoas de formas negativas, fazendo com que tenham expectativas irreais sobre o que é beleza e sobre a autoimagem.

Periodicamente, gosto de fazer um “detox” das redes sociais e percebo que ainda existe um grande número de pessoas que não consegue se imaginar distante de seus perfis online. O brasil foi considerado o segundo país com mais “viciados” em internet e psicólogos estimam que em alguns anos, o vício em redes sociais atinja um número ainda maior que o atual. Portanto, devemos considerar não apenas os benefícios, mas também os danos subsequentes causados ​​pelo uso abusivo de mídias sociais, que podem consequencionar perdas significativas em sua vida pessoal, profissional, acadêmica, social e familiar. É necessário monitorar atentamente nossa utilização e combater quando identificamos qualquer indício de dependência.

 

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