Filmes antigos, contexto social e preconceito

 Quando fazemos uma crítica ou comentário referente algum filme ou qualquer outro conteúdo midiático, o contexto social é absolutamente fundamental. Porem, devemos considerar que eles são criados por pessoas que são influenciadas por muitos fatores sociais, usando a tecnologia de uma época específica, e entregues a um público que traz suas próprias experiências, também influenciado pelas mesmas coisas. Em todos os sentidos, quando vemos alguma obra visual - especialmente produções cinematográficas - elas fornecem um retrato importante do contexto social no qual foram criados. É por isso que é importante utilizarmos um olhar crítico ao avaliarmos filmes mais antigos. Este é um exercício vital e valioso, é também por isso que filmes antigos não costumam ser citados quando falamos sobre sexismo ou racismo, simplesmente em virtude da época em que foi lançado.

Isso é motivo o suficiente para não ignorarmos tais aspectos?

Há uma atitude estranha em relação ao sexismo e ao racismo nos filmes “antigos” - e quando digo “antigos”, quero dizer tudo de 1878 a 2006. Mesmo em alguns setores legítimos da mídia crítica, existe a atitude de que, bem.. é assim que as coisas foram feitas naquela época. Tudo era mais sexista e racista naquele período, então não podemos esperar que esses filmes resistam a qualquer tipo de escrutínio moderno. Dizem que era 'daquele tempo' e essas coisas não podem ser julgadas pelos padrões de hoje. No entanto, tal atitude sofre de uma nítida falta de nuance.

Certamente, não podemos julgar as realizações técnicas de, digamos, Gatinhas e Gatões de 1984 pelos padrões de hoje, porque cada departamento técnico - das câmeras aos figurinos - passou por uma evolução massiva ao longo do tempo, mas a misoginia sempre foi misoginia. Foi uma violação nauseante quando, naquele filme de 1984, Jake e Ted fizeram um acordo sobre a devolução de roupas íntimas roubadas e o lascivo Ted recebeu permissão de um homem para sair com uma rainha do baile incapacitada como se ela fosse um presente de natal.

O contexto social é absolutamente fundamental, porque muita coisa mudou nos últimos anos, mas a discriminação sempre foi discriminação. A única mudança em relação à discriminação foi na responsabilização.


Desde que o Twitter foi lançado em 2006, ele mudou a natureza da mídia social, a plataforma oferece às mesmas pessoas que são discriminadas na sociedade e no cinema, uma oportunidade de falar sua verdade em um campo de atuação muito mais equitativo. As mulheres podem denunciar sexismo em filmes em tempo real, em uma única entrada no microblog e, potencialmente, fazer com que essa opinião seja vista em todo o mundo.

Pessoas negras, latinas, asiáticas, árabes e muçulmanas e todos os membros da audiência afetados por discriminação étnica na tela podem fazer o mesmo. Pessoas discriminadas com base na sexualidade, identidade de gênero, deficiência ou peso podem ter uma palavra a dizer em um palco público e, potencialmente, serem ouvidas. Essa plataforma também evoluiu com o tempo e, inevitavelmente, desenvolveu problemas próprios com base no preconceito - mas essa função central, em termos amplos e gerais, permanece.

Então, por exemplo, quando ouço que Grease, de 1978, é uma diversão inofensiva, porque é tão "daquela época" o que ouço é que 1978 ainda foi um tempo sem responsabilidade. Por que outro motivo um filme sobre uma mulher tendo que mudar toda a sua personalidade para ficar com um homem (cujos amigos são estupradores, a propósito) seria considerado um clássico duradouro?

Sim, alguns argumentam que Sandy não muda para ser aceita, mas sim, abraça seu "verdadeiro" eu, mas não é conveniente que seu "verdadeiro" eu simplesmente se vista e se comporte exatamente da mesma maneira que Danny e sua camarilha de engraxate? 

Se você acredita que ela está jogando fora a opressão conservadora em sua transformação, isso certamente é verdade, mas ela está simplesmente trocando uma identidade patriarcalmente aprovada por outra, em vez de definir sua identidade por si mesma.

Em vez de dar passe livre a Grease por ser antigo, é vital que analisemos de forma mais crítica porque, em 1958 - cenário histórico para a trama do filme -, o abuso e o estupro eram mais prováveis de serem sofridos por mulheres como um fato sombrio da vida, porque a estrutura da sociedade patriarcal desencorajava ativamente o relato. Em 1978, quando o filme foi lançado, o mundo havia assistido a uma revolta do feminismo, levando a uma maior ênfase social nos direitos das mulheres.

Quando ativamos esse olhar crítico e o aplicamos ao contexto social de Grease, então, podemos ver que o filme representa uma glorificação de música e dança revestida de açúcar de uma época que se adequava melhor à América conservadora - quando diziam às mulheres que não deveriam querer nada mais do que apaziguar os homens em suas vidas. Era a velha história de colocar as mulheres sob controle, disfarçada como um conto de rebelião adolescente da década de 50.

Além disso, foi lançado com grande e duradoura fanfarra no final de uma década que viu, no continente, o nascimento da Emenda de Direitos Iguais e toda uma série de greves e protestos liderados por mulheres.


A ideia de que, como o sexismo e o racismo eram mais flagrantes, abertos e relativamente incontestáveis no passado, aqueles envolvidos nessa opressão não sabiam nada melhor, é comprovadamente absurda. Temos visto ao longo da história - da mídia à política e em todos os lugares intermediários - que os ganhos obtidos contra a opressão trazem uma resposta opressora. No cinema, isso é o que Grease representou. Na política moderna, por exemplo, é isso que significa a nomeação de pessoas com pensamentos misóginos para cargos de poder.

Quando damos passe livre aos filmes antigos e argumentamos que o trabalho de Hitchcock, Kubrick ou Huston, por exemplo, deve ser criticado apenas no âmbito limitado da era em que eles criaram seus filmes, acreditamos no sexismo e no racismo que está embutido em seu produto. Só porque não houve reação pública duradoura na época sobre os fatos, não significa que o sexismo e o racismo não foram um problema - significa que denunciar o sexismo e o racismo publicamente foi considerado imprudente pela mídia e seus espectadores.

Não é que as pessoas não se importassem de ser discriminadas naquela época, ou não soubessem que a discriminação estava acontecendo, é que elas não se sentiam capazes de abordar abertamente na mídia. Não é que só aprendemos sobre sexismo e racismo na mídia na década passada, é que a internet apenas facilitou uma discussão coesa sobre isso na última década, com vozes nunca antes ouvidas sendo finalmente ampliadas e os perpetradores sendo responsabilizados.

Dizer que 'Era assim que as coisas eram feitas naquela época' nada mais é do que fazer o chamado apologismo patriarcal, porque sexismo e racismo na mídia em qualquer época é fundamentalmente propaganda patriarcal. Esta não é uma teoria da conspiração, é um caso simples de causa e efeito cumulativos. Homens brancos financiando consistentemente projetos que os colocam no centro da maioria dos filmes da indústria cinematográfica ocidental, enquanto usam todos os outros como personagens facilitadores ou cenógrafos, é propaganda para o patriarcado branco. Isso ocorre porque, coletivamente, isso implica que os homens brancos são as pessoas mais importantes do mundo e nos doutrina a ver seu ponto de vista como o padrão.

Quando olhamos para os filmes antigos, podemos ver alguns dos blocos de construção do sexismo e do racismo que existe em nossa sociedade hoje. Também podemos ver, na época em que foram feitos, aqueles estúdios e cineastas que faziam filmes discriminatórios voluntariamente adicionados a essa estrutura patriarcal, escolhendo manter o preconceituoso status quo social ao invés de desafiá-lo em sua arte.


Faz um século desde que a maioria dos filmes de faroeste é obra de cineastas, homens brancos, fazendo filmes sobre homens brancos - nos quais as mulheres são, na melhor das hipóteses, objetos a serem "conquistados", "resgatados" ou possuídos, ou na pior das hipóteses, inteiramente descartáveis - ajudou a garantir o patriarcado dos homens brancos no mundo ocidental. A prova disso, foi presenciarmos a eleição de uma estrela de reality show como presidente dos Estados Unidos, apesar de uma longa história de racismo flagrante, 25 mulheres acusando-o de agressão sexual e sua confissão de agressão sexual em série sendo gravada. Não precisava ir tão longe para exemplificar, mas citar nomes poderia ocasionar uma discussão política - embora contra fatos não existam argumentos - e esse não é o intuito deste post, mas para incitar a curiosidade, sugiro que pesquisem o historico de cada membro eleito aqui no Brasil e seus envolvimentos em escândalos semelhantes. Recomendo, inclusive, que façam essa pesquisa antes de cada eleição, com cada candidato.

Nas próximas décadas, quando fizermos nossas análises sobre filmes como Missão Impossível: Fallout, Alien: Covenant, Avengers: Ultimato e Joker, o período atual será o contexto social que iremos aplicar em nossa análise. 

Quais serão nossas conclusões? Provavelmente veremos que não sabíamos de nada. 

A sociedade evolui, nossos conhecimentos são ampliados e mudamos nossas perspectivas. Um dia talvez dirão que as coisas eram feitas assim que as coisas eram feitas naquela (nesta) época.




Nota inserida após a publicação: No streaming da Disney, o Disney +, observações foram inseridas para alertar o espectador sobre a possibilidade de haver preconceito. Você pode encontrar este aviso com a descrição "contém representações culturais desatualizadas". Embora não tenha mencionado filmes da Disney nessa postagem, sabemos que grandes clássicos como Peter Pan, por exemplo, contém algumas insinuações preconceituosas.


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