Três dias

Daniela estava quieta.
Ester começou a se preocupar com a irmã; há três dias que nenhuma mensagem de Dani fazia vibrar seu celular.

- Talvez ela esteja chateada - pensou. A irmã caçula tinha motivos para estar em silêncio, afinal, todos acreditavam que ela abandonara o tratamento. Outra vez.

Daniela foi diagnosticada com esquizofrenia aos doze anos, e aquilo devastou a família. Órfãs de pai, a mãe as abandonou quando recebeu a notícia sobre a filha mais nova; aquilo parecia demais para uma mãe viúva. Desde então, Ester assumiu a responsabilidade pela pequena família, ou ela queria acreditar que tinha aquela responsabilidade. A verdade era que Ester carregava aquele fardo por escolha própria. Temia cuidar da própria vida. Temia não ser necessária e, de alguma forma, temia ser só.
"Sua chamada está sendo encaminhada para..." Era a quarta vez que a ligação ia para a secretária eletrônica.
Há vinte dias, Daniela e Ester foram ao psiquiatra. Elas não conseguiam se lembrar quantas vezes a cena se repetiu, mas agora era diferente, Dani dizia estar em um relacionamento. Com quem? Ninguém sabia. O médico disse que aquilo não era real. Ester ficou na casa da irmã por alguns dias, tentando acreditar no que ouvia. Ninguém apareceu. Tudo indicava que os antipsicóticos já não faziam mais efeito. Brigaram. Ester foi embora e, dias depois, Dani apareceu em seu apartamento com marcas de estrangulamento. Ester voltou para a casa da irmã e, outra vez, nada aconteceu. O médico queria interditar Daniela, mas precisariam de provas. Ele alegou que a jovem poderia representar um perigo para si mesma e para a sociedade, mas Ester não conseguia comprovar que a irmã era incapaz, pois ela se recusava a instalar câmeras de segurança em sua residência.
A mesma história se repetiu algumas vezes até Ester cansar e dizer que a irmã era um caso perdido. Oficialmente, ela estava desistindo.
Três dias.
Três dias se passaram e nada.
Ester pegou as chaves e partiu em direção à avenida Cruzeiro do Sul, endereço da irmã. Enquanto ligava o carro, ensaiava o discurso. Dessa vez, Daniela não teria escapatória; ela seria internada, era o único modo de garantir sua segurança e a continuidade do tratamento. Destrancou a porta sem esforço ao chegar no local. Abriu a porta e sentiu um cheiro diferente do que sentiu da última vez que entrou ali. Parecia cheiro de grama, esmalte, era impossível dizer, mas a resposta veio ao entrar no quarto e encontrar a irmã deitada em sono profundo. Era tarde demais. Daniela estava morta e Ester se sentia culpada. Ligou para a emergência por osmose, não havia mais nada a ser feito. Uma investigação seria instaurada dado os últimos eventos e apenas por mera casualidade, para Ester era claro: Suicídio. A irmã, no auge de sua incapacidade mental, atentou contra a própria vida. Era plausível, começou com a tentativa, a automutilação, tudo estava óbvio.
Em uma quarta-feira de outubro, a história mudou.
O telefone tocou e, na outra linha, era o detetive encarregado. O detetive teve acesso ao celular de Dani, e os registros mostravam que ela tinha um namorado. O fato ficou claro quando ele assistiu a um vídeo feito por Dani. A moça estava tentando distinguir o que era real e o que era fruto da doença. Ao que parecia, o vídeo seria enviado à irmã, só assim ela provaria que suas faculdades mentais estavam plenas e que ela ainda tomava seus remédios. O vídeo, que nunca foi enviado, não captou rostos, apenas vozes. O áudio registrou uma discussão nos últimos momentos de Daniela.
Ester, sentindo-se responsável e sem esperança, tirou a própria vida. Ela não precisava encontrar o assassino de sua irmã porque, em seu âmago, ela era a assassina.


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