O algoritmo não teve infância

Frequentemente, tento manter o hábito da escrita vivo. Por isso, dia desses, peguei alguns textos antigos meus. Textos escritos numa época em que o que eu sabia sobre IA se resumia ao filme Minority Report, e joguei em um desses detectores de IA. Tamanha a minha surpresa quando o software jurou que eles tinham sido gerados por uma máquina.

É um choque ler isso. De repente, o meu cuidado com as palavras, o fato de eu não abrir mão de escrever da forma correta, meu jeito de organizar o pensamento, a estrutura e todo o resto que são resultados de uma meticulosidade irritante, viraram padrões matemáticos para um programa de computador. É como se, por eu me expressar com clareza, eu tivesse perdido o direito de ser reconhecida como humana.

Acho que é um aborrecimento bem comum para quem está acostumado a ler e escrever, mas esse erro dos detectores me fez perceber que a tecnologia pode até imitar o jeito humano de escrever, mas ela não tem a minha história. O algoritmo não teve infância.

Não estou reclamando da tecnologia, muito pelo contrário. Eu me sinto sortuda por estar aqui, neste momento do mundo. Acho incrível poder usar a tecnologia para resolver um bug num código que está me dando dor de cabeça ou para, finalmente, dar uma melodia digna àquela música que inventei quando tinha oito anos. Ter essas ferramentas à disposição é como ter um superpoder. A tecnologia nos ajuda a tirar os planos do papel com uma velocidade que nunca tivemos antes.

Mas existe uma linha que eu não deixo ninguém cruzar e acho que você também não deveria.
Eu uso a tecnologia como ferramenta para me ajudar no que é técnico, mas não entrego a ele a minha criatividade. Ela pode sugerir caminhos, mas a decisão final, a escolha de cada palavra e a emoção por trás de cada frase são minhas. A tecnologia me ajuda a ritmar a música da Cris criança, mas ela não sabe o que aquela criança sentia quando cantarolava aquelas palavras.

Saber usar o que há de mais moderno para potencializar quem a gente sempre foi é o verdadeiro significado de ser autêntico. O software pode até analisar nossa gramática e dizer que somos um robô por usar “está” ao invés de “tá”, mas ele não tem as nossas memórias. Ele é feito de cálculos, nós somos feitos de tempo, de tentativas.
Eu sou feita de uma vontade teimosa de continuar sendo a dona da minha própria voz.

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