O tesão passa. E tudo bem
Algumas pessoas vivem em modo econômico. Eu nunca consegui.
Gosto de viver as coisas por inteiro e me entusiasmo fácil pela vida. Por pessoas, conversas, ideias, projetos, lugares, possibilidades. Sempre fui assim. Quando algo me desperta curiosidade ou encanto, eu mergulho de cabeça. Se descubro um assunto novo, viro noites aprendendo. Se conheço alguém interessante, me permito sentir a experiência sem fingir desinteresse só para parecer emocionalmente sofisticada.
Talvez a confusão aconteça nesse ponto.
Existe uma tendência quase automática de transformar qualquer conexão bacana em promessa de eternidade. Nem toda troca precisa seguir o roteiro de conhecer, namorar, noivar, casar, envelhecer juntos e dividir o mesmo plano de saúde até o fim dos dias. Eu não acho que toda experiência bonita precisa virar destino.
A verdade é que quem olha para uma mulher entregue a um final de semana intenso e assume que ela já está de olho no altar, ainda é refém de um roteiro muito antigo. O patriarcado e o capitalismo adoram vender essa ideia de que a mulher está sempre à caça, operando de forma utilitária, procurando um marido ou um contrato de exclusividade a cada esquina. É uma visão colonizada. A gente cresceu ouvindo que o homem se diverte e a mulher se apega. Mas a real é que, já dizia Cyndi Lauper, girls just wanna have fun. Mulheres também querem só se divertir, viver o agora e ponto. Sem segundas intenções.
Às vezes, um único final de semana carrega mais verdade do que relações inteiras construídas no piloto automático. Uma conversa muda alguma coisa dentro da gente e pronto, já cumpriu perfeitamente seu papel. Nem tudo que é intenso foi feito para durar; algumas coisas só foram feitas para acontecer. E isso não diminui em nada a beleza delas.
Quando eu demonstro afeto, presença ou entusiasmo, não significa que estou apaixonada pela pessoa. Significa só que estou apaixonada pela vida naquele instante. Pela troca. Pela sensação rara de conexão genuína em um mundo onde quase todo mundo parece permanentemente distraído.
Se acaba, tudo bem. Claro que algumas despedidas doem e nem toda história termina sem deixar marcas. Mas eu prefiro colecionar experiências reais ao invés de passar a vida tentando controlar o inevitável. Prefiro lembrar que fui inteira em um momento bonito do que perceber que economizei sentimento por medo.
Inclusive, medo do quê? Por que se permitir estar vulnerável incomoda tanto?
Gosto de tratar os outros como gostaria de ser tratada. Gosto de demonstrar interesse, dar atenção, calor humano e verdade. Sem joguinhos disfarçados de maturidade, sem aquela necessidade de parecer fria de forma performática para manter o controle da dinâmica. Afinal, quem ganha com isso? Alguém realmente ganha com isso?
Essa forma de existir transborda para tudo o que eu faço. Eu funciono à base de fascínios temporários — ou não. Às vezes, um assunto me pega e eu entro em estado de obsessão criativa. Foi assim que aprendi italiano. Foi assim que mergulhei em tecnologia e fiquei obcecada em entender como aplicativos funcionavam até criar o meu próprio. Quando algo me desperta, quero entender até o fundo. Quero consumir, desmontar, aprender e respirar aquilo por semanas.
Depois, o tesão passa. E tudo bem.
Isso não me faz volúvel, superficial ou incapaz de permanecer. Significa apenas que algumas experiências cumprem o que vieram cumprir. Elas chegam, me atravessam, me transformam e depois descansam dentro de mim como capítulos completos — não como abandonos.
Existe uma diferença enorme entre ser instável e ser viva. Tentam nos convencer de que sentir demais é um defeito, quando na verdade é só uma forma mais elétrica (e legal) de estar no mundo.