A objetificação feminina
No inicio desta semana, a objetificação do corpo feminino
foi um dos temas mais buscados e comentados em todas as redes sociais. Não
mencionarei os nomes dos envolvidos porque acho que, na internet, quanto mais
escrevemos o nome de um sujeito, mais ibope e visibilidade essa pessoa ganha,
ou seja, mais espaço para falar asneira.
Sério, gente. O maior protesto que vocês podem fazer é NÃO DAR IBOPE!
Falem sim a respeito para que todos tenham conhecimento do que é certo e
errado, mas deixem-me explicar como funciona a internet e as redes sociais:
Tudo se trata de algoritmos. Cada vez que você visita o perfil do embuste, cada
vez que você o menciona ou comenta alguma postagem, mesmo que o seu comentário
seja uma ofensa direcionada, você está fazendo com que aquele perfil seja
considerado relevante. Para as marcas, isso é um prato cheio. Acreditem no que
quiser, mas a maioria das marcas não quer saber se vocês aceitam ou não, mas
elas querem ser vistas e, para cada pessoa que é contra algo, há uma neutra e
uma a favor. Essas duas outras pessoas são compradores em potencial e as marcas
adoram isso.
Após esclarecermos os pontos acima, vamos ao tema principal, a objetificação do corpo feminino e a naturalização perante a sociedade.
Todos os dias, mulheres comuns estão sendo reduzidas ás suas partes do corpo. A diferença entre a maneira como mulheres e homens são retratados na mídia é acentuada. As mulheres são constantemente reduzidas à soma de suas atribuições físicas e você deve se perguntar sobre o culpado disso tudo.
Todos nós somos culpados.
Talvez você não se lembre das histórias para dormir que
ouvia no berço, mas pare para pensar nos livros infantis que você conhece. Já
reparou que os personagens masculinos são enaltecidos em relação aos personagens
femininos?
Temos um príncipe que precisa resgatar a princesa; O caçador que salva a
garotinha e a avó; Entre tantos outros exemplos citáveis...
A centralidade masculina cresce à medida que nós também crescemos e continua a
nos perseguir por toda a vida.
Você já percebeu que a grande maioria dos filmes produzidos retratam os homens como
protagonistas e as mulheres têm papéis como namoradas, esposas, mães ou outros
papéis coadjuvantes?
Apenas 12 a 15% dos filmes de maior bilheteria de Hollywood são voltados para
mulheres ou possuem foco nas mulheres e em suas histórias.
O efeito cumulativo dessas
situações é continuarmos educando as gerações para ver o mundo, e as mulheres
nele, sob o ponto de vista masculino.
O grande problema da
objetificação feminina, principalmente neste país, gira em torno da imagem
corporal e de como as mulheres aparecem em nossa sociedade. A imagem corporal é
definida como a imagem subjetiva ou mental do próprio corpo, podendo ser
confundida com a autoestima, que é a forma como você pensa ou percebe e sente
sobre si mesmo.
Por exemplo:
Para uma jovem que luta com problemas de imagem corporal e de auto-estima, isso
pode ser incrivelmente prejudicial à medida que se desenvolve a feminilidade. Esse
tema tem afetado meninas e mulheres com problemas de bem-estar emocional,
mental e físico, o que pode incluir problemas de baixa auto-estima, depressão e
distúrbios alimentares.
Os distúrbios são geralmente, se não sempre, causados por esse preconceito cultural contra a gordura e a obesidade. A idéia de estar acima do peso, ou não ser tão magra quanto às mulheres mostradas na mídia, influencia muitas mulheres. A definição de beleza foi distorcida ao longo do tempo e muitas mulheres sentem que são valorizadas apenas por suas aparências.
Em nossa cultura, criamos certo tipo de marca para a mulher perfeita. As mulheres precisam ser magras ou ter curvas em todos os lugares julgados como “certos”. Se você tem todos esses fatores, é considerada a mulher ideal. Nossa cultura forçou as mulheres a serem valorizadas por seus corpos e não por suas mentes.
De acordo com um estudo realizado pela UNICEF, em uma variedade de 58 revistas, em média 51,8% dos anúncios com mulheres as retratam como objetos sexuais e, quando as mulheres aparecem em anúncios de revistas masculinas, elas são objetivadas 76% das vezes.
Outra questão em relação a este assunto, é a influência sobre os homens. A mensagem que a mídia está enviando ao exibir essas imagens com denotação sexual não afeta apenas as mulheres na maneira como elas se percebem, mas também afeta a maneira como os homens enxergam as mulheres.
Os homens também podem ser e são influenciados pela mídia para acreditar que a atratividade ou o sucesso estão ligados ao domínio, poder e agressão. Anúncios, videoclipes e filmes passaram a representar o que a sociedade, ou mesmo nossa cultura, considera normal. A mídia frequentemente retrata isso com imagens que degradam e prejudicam as mulheres, fazendo com que a violência seja normalizada e as mulheres sejam tratadas como um acessório do homem, dando a ele o poder sobre elas. Esses estigmas também reduzem as chances de atos de violência, especificamente sexual, serem denunciados.
De acordo com os dados divulgados pela Segurança Pública, apenas 35% dos crimes de estupro ou violência são denunciados às autoridades.
Talvez você se pergunte o porquê algumas mulheres não realizam a denúncia. Saiba que, muitas vezes, elas não se apresentam para denunciar esses crimes por medo. Nossa sociedade ainda é uma das que mais culpabilizam a vítima ou questionam a integridade da denúncia. Mesmo diante dos fatos, muitos crimes ainda ficam impunes.
Isso acontece porque mesmo em locais teoricamente seguros para a exposição do crime, como a delegacia da mulher, ocorre o descaso com a situação. Infelizmente, eu vi isso acontecer em um dia que fui até a delegacia da mulher localizada no centro de São Paulo. Eu seria a próxima da fila, quando uma policial chamou a moça que estava na minha frente e pediu que ela relatasse o que ocorreu e a denúncia que ela iria realizar. A mulher disse que, durante três anos, sofreu abusos verbais e sexuais do companheiro, mas havia se separado há aproximadamente um mês e estava recebendo ameaças de seu ex. A expectativa era de que a moça fosse acolhida, mas ela foi criticada por não ter denunciado antes e questionada sobre o porquê ela suportou aquele cenário.
A denúncia que eu iria fazer não tinha aquela mesma gravidade, mas as palavras que ouvi foram suficientes para me fazer recuar.
Imagine quantas mulheres foram expostas aquela mesma situação e também desistiram de ir adiante com a denúncia?
Todos nós temos um grande papel no empoderamento feminino para acreditar que qualquer violência ou ofensa é um assunto sério e prejudicial e deve ser tratado como tal.
Em 2011, foi lançado um documentário intitulado Miss Representation, dirigido e produzido por Jennifer Siebel Newsom. O filme analisa e mostra como a mídia sub-representou as mulheres em posições de poder. O lema do filme, "você não pode ser o que não pode ver", corresponde a uma mensagem necessária para as mulheres, principalmente as mais jovens que precisam de modelos positivos para seguir, mas a mídia deixou de fornecer isso a elas.
A cada mulher reduzida a um atributo corporal, um pedaço de nossas lutas durante a história, é queimado. Durante anos lideramos movimentos revolucionários:
Pelo direito de cursar uma faculdade, de votar, de obtermos igualdade entre os homens, do uso da pílula anticoncepcional, contra a violência doméstica e pelo reconhecimento do feminicídio.
Nada em nossa existência tem sido fácil, mas há pessoas lutando para mudar isso e devemos fazer parte dessa luta. Devemos levantar a mão quando vemos algo errado e conscientizar os nossos conhecidos. Isso traz esperança de que as pessoas possam se unir para acabar com a deturpação das mulheres e uma existência mais humanizada no futuro.