Monólogo sobre a legalização do aborto

Lembro-me de ouvir um dia, enquanto ainda era criança, a seguinte frase: “Respeito a vida, que cada um cuide da sua!”

Desde então eu soube que minhas opiniões e atitudes não deveriam ser utilizadas para influenciar a vida ou as decisões do outro. Se não interferem na minha vida, não são da minha conta.

Aproveitando essa introdução, gostaria de lembrar que este blog não é democrático e, por isso, não há campos para comentários. Se você, em algum momento, sentir-se incomodado com o que estiver lendo, peço que, por gentileza, feche a página e siga sua navegação online normalmente.
Se você concorda com o assunto que tratarei, provavelmente irá receber as informações de bom grado. Se você discorda, mas tem mente aberta para compreender diferentes pontos de vida, é bem vindo para continuar a leitura, caso contrário, novamente recomendo que feche a página e siga a sua vida.

Constantemente vejo debates online sobre a legalização do aborto. Alguns argumentos são os de sempre, em outras vezes eu acabo aprendendo um pouco mais sobre o assunto, mas a grande questão é: Independente de sua posição, se é contra ou a favor, você não tem o direito de decidir por outra pessoa, mas tem o dever de lutar pela liberdade dela escolher.

Uma vez eu estava andando pela Avenida Paulista com minha prima que, até então tinha apenas 11 anos e, um grupo de pessoas estava fazendo uma passeata a favor da legalização do aborto. Minha prima ficou indignada, disse que aquilo era errado. Incentivei que ela compartilhasse comigo os motivos de acreditar que a legalização poderia ser algo ruim. Conforme o esperado, ela repetiu discursos que foram lhe passados sobre religião, machismo e misoginia. É difícil falar sobre o tema com uma criança, mas exemplifiquei da seguinte forma:

Eu: Você gosta de dipirona?

MC: Não, não gosto.

Eu: Se eu estou com dor de cabeça e quero tomar dipirona, você vai me impedir?

MC: Não.

Eu: Por quê?

MC: Você que está com dor.

Eu: Exatamente. Eu estou com dor, a cabeça é minha, portanto, a decisão deve ser minha.

Não sei se a opinião dela sobre a questão mudou, mas sei que plantei a semente da reflexão.

Se uma mulher opta por fazer um aborto, ninguém precisa concordar com os motivos que a levaram àquela decisão. Ela não precisa apresentar suas bases e, qualquer opinião contrária a realização do procedimento, não deve ser compartilhada de modo a tentar interferir.

Você não é ela. Não é o seu corpo e se não for o SEU útero, não é da sua conta e posso garantir que nenhum dos envolvidos dá a mínima para sua opinião sobre o assunto, porque a decisão nunca foi sua, nem será. Já ouvi argumentos do tipo: "não é o corpo dela, ela está matando outro ser humano.”

Pensemos assim: Uma criança não pode sobreviver fora do útero até 26 semanas, que é MUITO depois da data limite para o aborto induzido. Seus pulmões não estão desenvolvidos o suficiente para sobreviver. Então, sim, esse FETO é parte do corpo daquela mulher e, se você discorda, você não tem ideia de como funciona uma gravidez ou como funciona o desenvolvimento fetal. Você é simplesmente contra a liberdade de escolha, alguém que pensa que pode ditar regras sobre o corpo de uma mulher com base na sua própria religião ou princípios morais. Bem, pessoas que optam por realizar um aborto não se importam com a sua religião ou com a sua moral, eu também não me importo.

A verdade é que nenhuma pessoa a favor da legalização do aborto quer que alguém realize cem abortos em sua vida, mas é preferível que uma pessoa faça cem abortos do que até mesmo uma pessoa ser forçada a passar por uma gravidez indesejada. Uma gravidez indesejada pode ter como consequência uma criança infeliz ou, no pior e mais comum dos casos, uma criança abandonada, contribuindo com os índices de pobreza, fome e miséria.

As pessoas contra a legalização costumam se auto denominar “pró-vida”, uma forma de mascarar que eles são, na realidade, contra os direitos das mulheres, principalmente das pretas e pobres. Essas pessoas são contra a autonomia corporal, contra o poder de escolha.

Como alguém pode se entitular “pró-vida” quando os ideais destas pessoas podem arruinar tantas outras?

É isso que está acontecendo, vidas estão sendo arruinadas, mulheres estão morrendo por não terem a possibilidade de interromper a gravidez de forma segura e assistida.

É claro que adoraríamos viver em um mundo onde ninguém seja vítima de um estupro, financeiramente instável, ou onde haja um ambiente impróprio para uma criança.

Adoraríamos que o aborto fosse desnecessário a ponto de podermos bani-lo sem consequências, mas não vivemos nesse mundo, então a proibição do aborto só prejudica e mata as pessoas, principalmente as mais pobres que tentam abortar sozinhas em casa ou em clínicas clandestinas. Essas leis antiaborto não fazem diferença para as pessoas ricas, estas continuarão realizando o procedimento pois podem simplesmente ir para o exterior realizá-lo.

Se você é o tipo de pessoa que usa o argumento “Não deveria ter aberto as pernas”, “É só não transar”, se pergunte o porquê você acredita que depende da MULHER certificar-se de que está protegida quando o homem também é o culpado? É preciso dois para fazer um bebê. Uma mulher não deve ser punida com abstinência apenas para alimentar sua opinião pobre sobre os direitos reprodutivos das mulheres.

O interessante é que as pessoas que se declaram contra o aborto são também as que jamais adotariam porque preferem gerar e, se não puderem gerar, exigem adotar um bebê com menos de um ano, além de outras especificações. Muitas tentam até mesmo burlar o sistema para conseguir escolher a cor da pele da criança.
Essas pessoas reclamam da criminalidade e são a favor da redução da maioridade penal porque não conseguem relacionar que muitas dessas gestações indesejadas geram potenciais peças para o mundo do crime, mas sobretudo, essas pessoas têm a ideia da maternidade ideal, perfeita e irretocável, ou seja, além de desconsiderar toda a realidade social periférica e de saúde pública brasileira com os abortos clandestinos, ignoram a realidade de crianças que crescem como seres indesejados e sofrem as consequências, muitas inclusive reproduzem o mesmo padrão para com suas proles, criando um ciclo de miséria, problemas psicológicos e infelicidade.

Se você não se sensibiliza com uma mulher que não quer ser mãe (naquele momento ou definitivamente), tente se sensibilizar com as crianças que passam fome, dificuldade e vivem uma vida precária.

Conheço pessoas que foram fruto de uma gravidez indesejada e sofreram os efeitos disso, mas quem liga? Onde está o governo para abrigar ou apoiar essas pessoas? Quem paga a terapia dos efeitos dessa vida? Não há empatia após o nascimento.

O que mais me choca é ver mulheres com discursos machistas, quando dizem que são contra a legalização do aborto. Essas mulheres geralmente tiveram acesso ao estudo e todas as informações necessárias para prevenir uma gravidez indesejada, por isso, preferem considerar que todos tiveram acesso às mesmas oportunidades.

Há também quem diz que o aborto será utilizado como método contraceptivo caso seja legalizado e que “vai virar festa”.
Para essas pessoas desinformadas: saibam que a maioria dos países que adotam políticas de regularização do aborto tem uma redução significativa dos casos, justamente porque parte do processo para se chegar ali, é o acolhimento, orientação psicológica e social antes de qualquer procedimento médico.

Lembre-se que não é você que vai ter que ter um bom psicológico para cuidar de um filho, ter dinheiro e dar uma vida boa para ele. Colocar um ser humano no mundo para sofrer é crueldade.
Por isso sou a favor da legalização do aborto, para a mulher ter liberdade de fazer o que quiser e bem entende de forma segura.

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