A tal da (falsa) meritocracia

 Constantemente vejo o quanto a falsa expectativa da meritocracia afeta a mim, meus colegas e muitos outros “millenials” espalhados pelo mundo.

Muitas vezes damos tudo de nós, até mesmo a força que não temos, com a falsa esperança de que, em algum nível e em algum lugar, a meritocracia se revelará e todo o trabalho extra realizado (por nós ou pelos nossos ancestrais) valerá a pena.

A dura verdade é que não vai valer.

Essa crença foi adotada pelas gerações anteriores, pessoas à quem a meritocracia foi vendida descaradamente, por membros de um sistema opressor que exigia que os trabalhadores contribuíssem e consumissem mentiras capitalistas genéricas.

A expectativa de “viver o sonho” foi tão fortemente implantada que ainda somos cobrados com a mesma pressão e ilusão, ao ponto de fazermos tudo pensando em garantir alcançar os mesmos ideais de sucesso, como caminho para finalmente provarmos nosso valor e nos levar a um lugar novo. Queremos, inclusive, trazer um pouco mais de dignidade a nossos pais e avós através de nosso esforço. Mas estamos apenas continuando a mesma mentira.

O que estou expondo nestas linhas é uma simplificação grosseira e breve da dor e dos atos flagrantes de violência, escravidão, abuso e genocídio que ocorreram contra os corpos de nossos antepassados para criar o sistema em que vivemos hoje.
As realidades do tempo e do espaço impossibilitam-me aqui de aprofundar esta história, mas o que me preocupa é o presente.

Cabe a nós lutarmos contra a cultura “hustle”, antes que gastemos cada grama de nossa força, primeiro para sobreviver, depois para recuperar nossos corpos e mentes cansados.

As medidas de sucesso neste sistema foram criadas dentro desses regimes opressivos e opressores.
Agora, com o clique de um mouse, podemos facilmente participar deste sistema, e nos apressarmos e cobrarmo-nos mais e mais. Queremos ser melhores que nossos colegas, acumular mais riquezas que nossos vizinhos, dormimos e acordamos pensando em reconhecimento..., mas a verdadeira questão é sobre quando iremos parar de usar essa régua de medição imposta, quando iremos parar de reproduzir a noção de sucesso que nos tem sido imposta, na qual nossas comunidades tiveram que lutar para existir, sobreviver e ser vistas por tanto tempo.

Por que continuar participando do sistema como se já estivéssemos derrotados quando estamos tão perto de finalmente nos tornarmos nós mesmos?

Estamos tão perto de tomar consciência de nossa força há muito tempo reprimida.

Com um pouco de pesquisa extra, empatia e, principalmente, descanso, podemos transformar o núcleo de uma sociedade que foi construída e continua a prosperar nas costas dos menos favorecidos e, além disso, nunca mais precisaremos sentir a dor da síndrome do impostor novamente, porque seriam nossas próprias balanças medindo nossa autoestima.

Não estou sugerindo uma anarquia, mas sugiro que da próxima vez que você planejar entregar seu corpo, mente e alma a um trabalho, considere se essa atitude está alimentando você profundamente. Pergunte a si mesmo se isso está contribuindo para a sua existência como ser humano e criando meios para se sentir feliz de verdade.


É importante lembrar aqui que as pessoas que mais salvam vidas todos os dias são catadores de lixo, cozinheiros, garis, cuidadores de crianças, professores..., pessoas que impactam profundamente nosso bem-estar como sociedade em todos os aspectos de seu trabalho, e que não tem sido recompensadas com o merecido capital social.

Você não pode reduzir o valor de uma pessoa a uma única letra, um cargo ou número em uma escala de mérito. Nos fizeram acreditar que os A's são destinados à liderança, os B's à média gerência e os C's aos cargos inferiores, certo? Alguns podem protestar que é muito mais sofisticado do que isso - que os gerentes de RH podem implantar todos os tipos de ferramentas de avaliação de talentos e modelos de competência para direcionar as pessoas para as vagas que melhor se adaptam a elas. Mas o que realmente acontece? Algum comitê ou agente analisa a massa de dados sobre um monte de pessoas e resume tudo para tomar decisões simples do tipo A é melhor que B.  Enquanto isso, outras profissões igualmente importantes ainda são vistas como um “fracasso".

Talvez mais perturbador, simplesmente manter a meritocracia como um valor parece promover um comportamento discriminatório.

Certamente há programadores quase tão habilidosos quanto Gates que, no entanto, não conseguiram se tornar a pessoa mais rica da Terra. Em contextos competitivos, muitos têm mérito, mas poucos são bem-sucedidos. Enquanto isso, nossas almas são sugadas pela ilusão implantada a cada geração.

Podemos mudar a realidade. Podemos fazer melhor. Vamos inverter os papéis. Vamos entender a história para podermos mudar o futuro e o presente. Ainda temos tempo.


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