Em tempos estranhos, sejamos artistas

Somos seres sociais vivendo tempos estranhos, estressantes e isolados, para dizer o mínimo.

Recentemente, vi um meme falando sobre o motivo de estarmos agindo tão estranho. Esse questionamento me faz refletir e chegar a duas conclusões. Embora eu acredite que este fato está atrelado ao aumento no comportamento indisciplinado e, consequentemente, o surgimento de tendências antissociais ocasionadas pelo isolamento experenciado durante os dois anos de pandemia, também creio que nosso foco deveria ser menos no questionamento e mais na aceitação. Como podemos tirar proveito de nossa estranheza e minimizar os impactos observados?

Talvez alguns leitores considerem meu ponto de vista improvável, mas, para mim, está no cerne do que acredito: é hora de todos nós nos tornarmos artistas.


A mídia costuma escrever sobre a necessidade de resiliência como resposta à pandemia, mas também muitas vezes não oferecem sugestões reais sobre como realmente promover essa qualidade vital em todas as pessoas e comunidades.

 Tornar-se um artista é uma forma dinâmica de promover a resiliência, mesmo através das barreiras políticas e psicológicas que nos dividem.

Recentemente fiz amizade com uma pessoa que sempre teve incentivos à arte, diferente da maioria de nós, que muitas vezes fomos podados desde a infância, limitando nossa criatividade e, até mesmo, nossa capacidade de resolver problemas.

Fazer arte é um modo de explorarmos nossa própria paisagem interior. Não é a toa que esse método é comumente utilizado em terapias de reabilitação. Aflorar e explorar a criatividade nos incentiva a lutar contra nosso próprio medo do desconhecido. Nos incita a transformar todo o nosso interior em algo visível e compreensível aos olhos alheios.

 A resiliência pode se enraizar em nossa paisagem interior quando navegamos pelos processos flexíveis do fazer artístico. O fazer artístico apresenta oportunidades para organizar, projetar, refletir e criar estratégias sobre como dar sentido à ambiguidade para o significado pessoal, um processo essencial para o desenvolvimento psicossocial resiliente, tanto como indivíduos quanto entre sistemas.

Não há fim para a riqueza de pesquisas que mostram que uma ampla gama de envolvimento com as artes cria resiliência ao longo da vida.

Em 2019, a OMS divulgou um relatório mostrando que as artes melhoram o bem-estar tanto na promoção, prevenção e gestão da nossa saúde mental quanto física. As artes permitem que nós possamos nos relacionar com outros seres humanos de maneiras novas e significativas. A criatividade é considerada uma das chaves para um envelhecimento mais saudável. 

Claro que não sou especialista no campo da neuroestética, mas vejo que, cada vez mais, esta área está se preparando para levar esses tópicos adiante na interseção da psicologia, biologia e da evolução humana para mostrar que as artes estão conectadas em nossos cérebros.

Um benefício inesperado que resultou dos anos de pandemia foram as oportunidades de promoção ao acesso radicalmente expandido à educação artística por meio de nossos mundos digitais e híbridos. Museus e centros comunitários alcançaram novos espectadores através das plataformas digitais. Vimos o CCBB e o Theatro municipal exibindo obras e espetáculos online, assim como tantos outros museus e theatros. 

Os bots de arte inundaram o Twitter com uma variedade de artistas. A educação artística mudou também com o potencial do Tiktok para vídeos curtos e virais. Comunidades resilientes ao lado de uma forma híbrida de aprendizado se tornaram fundamentais para o nosso futuro.

 Levar a educação artística a mais espaços e especialmente aos lugares não tradicionais pode mudar radicalmente como e porque as pessoas se tornam artistas online e offline. 

As plataformas de mídia social enfrentaram sua própria luta de identidade e ética na pandemia, mas agora podem ser uma arena inesperada e propícia para promover a arte por meio da educação.

 Este momento me faz perguntar: como seria o futuro da tecnologia se a educação artística fosse um tópico considerado com a devida importância no desenvolvimento escolar? 


Minha paixão pela importância da arte em nosso mundo pós-pandemia é pessoal em primeiro lugar. Passei meus primeiros anos de vida com acesso restrito a arte. Em minha fase adulta, tomei como hábito visitar estabelecimentos culturais e artísticos. Com o fechamento e a suspensão das atividades desses locais, durante a pandemia tentei explorar minhas próprias habilidades artísticas. Minha avó pintava quadros e eu sempre a admirei por isso, portanto, pensei que talvez eu pudesse fazer o mesmo. 

Em minhas tentativas de criar alguma coisa, compreendi através que tentar fazer arte é como tentar falar uma língua pela primeira vez. É, da mesma forma, um idioma particular, que para  começarmos a compreender o que está sendo comunicado, são necessárias algumas experiências pois, em um primeiro momento, a comunicação com a obra pode parecer confusa.

 Quando nós somos os artistas da vez, é preciso também darmos chances a nós mesmos para sermos e permitirmos certa exposição. Compor arte é ficar suscetível e exposto, pois o objetivo final é estar presente na linguagem de si mesmo, através do processo de se tornar uno com sua criação.

 E nesse processo, pode-se aprender a estar presente e aceitar o fluxo da vida, abraçar a mudança, estando a vida muito bem ou muito estranha.

É por meio desses processos flexíveis de transformação em arte que podemos fortalecer indivíduos e comunidades resilientes e prósperas de maneiras emocionantes e inesperadas. 

Agora é a hora de nos voltarmos para nossas paisagens interiores através da arte, tanto analógica quanto digital, para que possamos sobreviver nestes momentos difíceis e estranhos.

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