Rock in Rio: Diversidade e inclusão? Eu acho que não.
Quem me acompanha nas redes sociais sabe que fui ao festival Rock In Rio que ocorreu no Rio de Janeiro. Este ano, diferente de 2019, haviam pessoas fazendo algumas pesquisas sobre a opinião dos participantes do evento (compradores). As questões incluíam opinar sobre a diversidade social, racial e cultural do evento e, consequentemente, se aquele era ou não um espaço inclusivo.
Além das coisas que comentei com os pesquisadores, tenho
algumas considerações que talvez tenham passado pela cabeça daqueles que se
importam com pautas sociais, caso contrário, talvez este artigo ajude algumas
pessoas a saírem da bolha.
Vamos começar falando sobre o que é um ambiente inclusivo:
Um ambiente socialmente inclusivo é um lugar onde todos são
bem-vindos. É aquele em que a pessoa se sente confortável o suficiente para
perceber sua identidade e expressar seus sentimentos. A inclusão social garante
que as opiniões de uma pessoa sejam respeitadas, assim como a de qualquer outra
pessoa.
Mas não podemos falar sobre inclusão social sem mencionar a
economia. Mas por quê falar sobre todos esses assuntos quando estamos nos
referindo a um evento musical?
Bom, o evento acontece no estado do Rio de Janeiro e, de
acordo com a pesquisa feita em 2019 pelo IBGE é um dos estados com maior
proporção de domicílios em aglomerados subnormais, ou seja, comunidades. No RiR
há um palco chamado “espaço favela”. A meia entrada, conforme o site responsável pela venda dos ingressos (Ingresso.com)
é garantida por determinados critérios, mas, em suma, o beneficio da meia
entrada, para a grande maioria das pessoas que desejam assistir o festival
dentro da Cidade Olímpica, termina aos 29 anos – que é quando a validade da
carteirinha de baixa renda expira. Após isso, a gratuidade é garantida a
professores, estudantes e pessoas acima de 60 anos.
Neste palco há a simulação de um morro e geralmente as
apresentações que ocorrem são de artistas que vieram da periferia ou que, ao
menos, falam sobre ela. Mas quando você resolve conversar com as pessoas que
estão lá dentro do evento, percebe que a condição financeira delas é diferente
da realidade de quem vive em uma favela. Quando você começa a racionalizar
sobre aquilo, percebe que é um espaço caricato para o entretenimento de alguém
que, possivelmente, nunca enfrentou aquela realidade.
Não escondo que já vivi em periferias e, graças ao esforço da
minha família (e ao meu também, obviamente), pude mudar um pouco a realidade em
que vivemos – meus pais e minha irmã – e atualmente podemos participar de
eventos como estes, fazer viagens, entre outros privilégios que são negados a
tantos brasileiros. Mas o fato de hoje morar em um lugar diferente não me fez fechar os olhos para quem não teve a mesma oportunidade de conhecer as coisas que conheço e que ainda quero conhecer.
Outro dia, um casal de amigos estrangeiros veio ao Brasil e
visitou algumas comunidades do Rio apenas para tirar fotos. Não levaram
alimentos, não contribuíram de alguma forma. Trataram o morro como atração turística,
assim como o Rock in Rio faz.
Não nego que dentro do evento é possível encontrar todas as
tribos e, quem tem a possibilidade, escolhe o dia preferido conforme as bandas
que irão se apresentar, há pessoas de diversos gêneros e estilos, hip hopers, kpopers,
emos, funkeiros, entre outros. Existe a diversidade cultural, mas não a racial
e nem mesmo a social, pois, muitas vezes, ambas estão atreladas, considerando
que os moradores dessas comunidades – ainda citando pesquisas do IBGE – 67% se identicam
como negros e pardos.
Conversando com um motorista de uber, carioca, ele me disse
que o Rio ganha muito com o turismo quando ocorrem esses eventos grandes. Mas
quanto deste lucro está sendo destinado a população carente? Quanto do que o
Estado ganha está sendo direcionado a melhorar a vida das pessoas que moram
nesses locais ao ponto de que elas possam acessar os espaços onde elas são mencionadas?
A desigualdade no país só aumentou com a pandemia de Covid19
e neste ano há eleição. Me desculpem, mas é impossível falar sobre inclusão,
economia e não citar política. Tudo está relacionado e se nos aprofundarmos
veremos que há muito mais a ser discutido.
Este é o ano em que podemos refletir sobre como diminuir a
desigualdade, diminuir a fome, crescer como país e melhorar como sociedade.
As comunidades não são palco para isso e nem devem ser
tratadas como para o rico ver. Em outros textos eu já mencionei o quão foi
importante para mim quando descobri que poderia visitar museus, teatros e
pertencer a sociedade. Façamos a escolha certa nas urnas, pensemos em nossos
colegas que não possuem acesso e nem conhecimento da existência desses
ambientes.
A inclusão social possibilita uma experiência humana mais
positiva e saudável. Não podemos dizer
que os festivais são eventos inclusivos enquanto não forem acessíveis ao povo.